Foi rápido e
indolor. Tanto se falou sobre isso, que conforme o tempo passava, a proporção
se tornava maior.
Eu confesso que não dei a menor
atenção; nunca perdi meu tempo pensando a respeito. Pelo menos eu pensava que
era perda de tempo. Meus velhos amigos, ainda do tempo de colégio viviam me
perguntando:
- Mas tu não
tens ao menos uma pulga atrás da orelha?
Não, eu não tinha. Trabalho,
esposa, filhos, netos, tanta preocupação, tanta coisa pra fazer que eu censurava
imediatamente quem vinha até mim com essa conversa. Além disso, eu sustentava
meu argumento no fato de essas especulações terem surgido tantas vezes e nunca
terem acontecido. Imagine, quanta bobagem ficar pensando nisso!
Eu tinha bastante dinheiro. Minha
empresa ia bem, mas eu nunca fui um empresário alienado socialmente. Ajudei
muita gente, fiz gordas doações a instituições de caridade, ajudei a cuidar do
planeta com ONGs de proteção ao meio ambiente, enfim, fiz meu papel. Eu queria
ajudar as pessoas a viverem em um mundo melhor, e não ficar aficionado numa
data específica esperando algo que alguém disse que iria acontecer acontecesse.
Sempre fui de atitudes concretas, não de possibilidades.
Hoje, me pego pensando por que
eu não acreditei. Por que não previ que isso pudesse acontecer e me precavi
contra as consequências, sabe Deus como, mas eu deveria ter tomado providências
para amenizar a situação. Era um dia normal, como outro qualquer. Acordei,
tomei meu tradicional banho, fiz a barba, e quando cheguei à cozinha minha
adorável esposa (sim, eu achava que seus cabelos brancos a deixavam ainda mais
graciosa) estava colocando o café na mesa. Com a calma de quem estava bastante
adiantado, comi vagarosamente, enquanto conversava sobre assuntos aleatórios com
minha mulher; a televisão foi desligada, pois eu não aguentava mais aquela
maldita pauta sobre superstição.
Despedi-me e saí para o
trabalho. É fato que minha esposa já havia pedido para que eu me aposentasse,
afinal de contas, com 80 anos não se tem mais a saúde de um garoto. Mas eu
amava meu trabalho. Não poderia deixar de fazer aquilo que construiu tudo que
tive em minha vida, e que ao mesmo tempo me dava tanto prazer. Depois de certa
idade, a gente aprende a aproveitar melhor cada dia como se fosse o último.
Mesmo.
Saí pela porta da frente do
prédio e, a partir daqui, posso narrar a última cena que vi. Lembro de ter
sentido uma pequena tontura diante daquele aglomerado de pessoas. Todos ficaram
preocupados e começaram a me cercar, como se pudessem evitar o que estava para
acontecer. O tempo fechou. A meteorologia já havia previsto isso. De repente,
uma luz muito forte e branca começou a se intensificar. Só conseguia ver a
silhueta de muita gente correndo, mas já era tarde.
Morri. Para mim, o mundo acabou.
Para todos os demais, ele seguiu seu curso normal.