segunda-feira, 30 de julho de 2012

A Força do Mal Entendido


Ela abriu o e-mail e viu que tinha um dele. Pensou que fosse um daqueles normais de sempre, pedindo para emprestar um livro ou um CD, avisando que tinha esquecido de pegar o celular com ela, ou algo do gênero. Eles já se conheciam há bastante tempo. Eram vizinhos, amigos de infância. Iam para várias festas juntos, e viviam sendo cupido um do outro. Chegavam na balada juntos, mas raramente isso acontecia na volta. Tinham uma relação muito cordial e fraterna. Por essas informações iniciais, já se sabe onde essa história vai dar.
Abriu a mensagem e se surpreendeu com o conteúdo. Ele se declarava um irremediável apaixonado, com todas as letras, sem a menor margem para dúvidas ou outras interpretações. A cada linha que lia, ficava mais incrédula, mais assustada. Como nunca tinha percebido nada?! Logo ela, que era tão perspicaz... Pela primeira vez na vida, se sentia constrangida em ligar para ele para falar sobre alguma coisa, porém, tinha que fazer isso. Bem, ele não citou seu nome em nenhum momento. Poderia ter se enganado. Poderia ter se enganado? Claro que sim, devia ser um grande mal entendido.
Leu tudo outra vez para ter certeza de que não entendeu nada errado. Resolveu ligar de uma vez:
- Pelo amor de Deus, vou ter algum tipo de receio em falar com ele depois de todos esses anos?! – pensou.
- Alô?
- Oi, eu recebi um e-mail teu muito estranho! O que significa?
- Que e-mail?
- Um cheio de negócios de amor e sei-lá-o-quê. Andou bebendo é?
             Os dois começaram a rir e ela se certificou de que havia algo errado, algum engano.
- É que na verdade eu escrevi esse e-mail para aquela menina que estou ficando. Mas como sempre faço, quis saber o que tu achavas. Depois acabei esquecendo de escrever sobre o que se tratava, mandei só o que eu ia mandar pra ela. Ficou estranho mesmo, foi mal aí...
- Tá tudo certo, fica tranquilo. E olha, pode mandar, ficou muito bom, se depois dessa ela não cair na tua rede, desiste, porque essa aí deve ter um coração de pedra...
- Tá bom, valeu o conselho. Tá de bobeira? Não quer comer uma pizza?
- Pode ser, eu peço lá. Passa no mercado e traz alguma coisa pra beber.
- Em meia hora tô aí.
- Tá bom. Tchau.
             Os dois desligaram o telefone. Nunca saberiam disso, mas fizeram a mesma cara, ao mesmo tempo. Com seus botões, ela raciocinou:
- Sabe que não seria má ideia... Mas claro que não. Foi só um mal entendido.
Com seus botões, ele raciocinou:
- Eu deveria ter falado que era pra ela. Não, foi melhor assim. Devo estar pensando bobagem. É coisa da minha cabeça. É só um mal entendido.
              Se não fosse um mal entendido, eles poderiam, quem sabe, ser felizes para sempre.

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Uma Constante Efêmera


Os anos vão chegando, e a gente vai se dando conta de algumas coisas. Nem sempre é fácil simplesmente enfiar na nossa cabeça algumas ideias, mas com o tempo, a gente aprende a aceitá-las.
Em algum momento, acho que todos acreditamos que haveria um dia em que seríamos plenamente felizes, em todos os âmbitos, de todas as formas possíveis. Você pode até dizer que nunca pensou a respeito, mas tem de admitir que em algum momento, bem lá no fundo, foi nisso que você acreditou; ou quis acreditar.
O fato é que a felicidade é efêmera. Longe de mim querer ser o pessimista, o infeliz, o sem perspectivas, pelo contrário, já sonhei e ainda sonho às vezes com uma felicidade incondicional e incessante, mas infelizmente, temos que admitir que ela não existe.
Quando digo que a felicidade é efêmera, não quero dizer que a sentimos uma vez e depois nunca mais. Quero dizer que ela é dada em doses homeopáticas, e que essas pequenas quantidades são as que nos mantêm vivos, porque compensam as coisas ruins que acontecem. Nos surpreendemos com pessoas que têm vidas muito mais difíceis que as nossas e dizem que são felizes, e que em nenhum dia acordam sem um sorriso no rosto. Isso não significa que elas sejam felizes o tempo todo, que não têm problemas. Ao contrário, os problemas são muitos, mas por isso mesmo essas pessoas se agarram com todas as forças às coisas boas que lhes acontecem, e isso que faz com que sejam capazes de resolver com mais naturalidade aquilo que é difícil.
A felicidade é uma constante efêmera porque não se manifesta o tempo todo, mas quando se manifesta, depende da nossa boa vontade reconhecê-la. O reconhecimento não tem nenhuma influência sobre acontecimentos ruins, depende exclusivamente de nossa boa vontade.
Busco aprender isso todos os dias. Não é fácil, mas é importante. Tento levar comigo e passar para os outros o seguinte pensamento: está feliz, está tudo dando certo? Aproveite. Abra bem os olhos e viva com a maior intensidade possível. Não vai ser assim pra sempre. Nada é para sempre. Está triste, está tudo dando errado? Calma. Interprete como aprendizado. Não vai ser assim pra sempre. Nada é para sempre.

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Decisões Indecisas


Quando nasceu, Dante ficou quase duas horas chorando. Não se aquietava nem no colo da mãe, nem sob a vigilância dos médicos, nem sozinho no berço, nem no colo do pai, nem no colo do irmão, e nem no colo da avó. O bebê só fechou a boca quando foi levado para um quarto separado, só para ele, sob o cuidado exclusivo de uma enfermeira.
Os anos passaram, e Dante se mostrou uma criança extremamente inquieta. Brincava com carrinhos, jogava futebol, bola de gude e andava de bicicleta. Ao mesmo tempo. Apesar de ser “multifuncional”, nada lhe satisfazia plenamente, e ele largava tudo e ficava imediatamente emburrado.
Na adolescência, certa vez, viu-se apaixonado por cinco meninas ao mesmo tempo. No momento em que cada uma delas parecia dar-lhe alguma chance, ele desencantava e a substituía por outra menina ainda mais difícil de conquistar. Mas o número permanecia o mesmo: cinco. Parecia uma promessa.
Todos estes acontecimentos servem para dar uma introdução ao que foi a vida profissional de Dante. Aos 18, quando resolveu que ia procurar algum emprego para ser dono do próprio nariz, distribuiu seu currículo para 100% dos empregadores da cidade. Mas parecia que ele não tinha muito foco, já que se colocou à disposição de uma pequena infinidade de funções: caminhoneiro, advogado, pedreiro, médico, padeiro, modelo, contador, músico, piloto de aeronaves, astronauta e jornalista. É importante pontuar que mesmo sem experiência, ele fez questão de ser entrevistado. Para todas essas vagas.
Pulando a parte em que ele tentou escolher com quem se casar, e chegando ao momento em que ele teve o primeiro filho, lá se vão 15 anos. Ele já estava com 35, e preparava-se para a maior emoção de sua vida. A maior emoção? Não. Uma das maiores. Pode ser comparada à aprovação na carteira de motorista, ao dia da formatura, ao dia do casamento, ao aniversário de 18 anos, à primeira namorada... Bem, a tantas coisas que não cabe listar neste momento. Ele estava para ter o primeiro filho. Tinha 120 nomes preferidos, e passava noites em claro pesquisando e tentando pelo menos diminuir a gama de possibilidades. O filho nasceu e ele deixou a esposa escolher qualquer nome, pois já tinha dado um nó no próprio cérebro tentando decidir.
No trabalho (um grande conglomerado de empresas que oferecia serviços de toda sorte, desde planos de saúde até construção de edifícios) as pessoas precisavam levar as duas opções do novo cartão de visitas com três meses de antecedência. A esposa precisava deixar quinze gravatas enfileiradas na cama no sábado à tarde, para que ele pudesse decidir até a segunda. O açougueiro precisava esconder a variedade de carne e dizer que só tinha sobrado uma.
Todas as pessoas que o conheciam, desde o seu maior desafeto até a própria mãe conseguiam concordar em uma coisa: a indecisão de Dante lhe fazia muito mal. Ele nunca conseguiria coisas boas se comportando dessa forma. E cansaram de dizer isso a ele.
Eis que mais alguns anos se passaram, e uma famosa conhecida dos humanos veio visitar “Seu Dante”. Vestia preto. Ela queria levá-lo para um lugar onde ele encontraria novamente seus pais, seus velhos amigos, e tantas outras coisas das quais ele não tinha resposta agora. Ela o deixou confuso com essa conversa. Se arrependeu.
Ele lhe fez tantas perguntas, mas tantas perguntas, que ela simplesmente sumiu e o deixou falando sozinho. Ao entregar o relatório diário a seu coordenador, e obviamente, ter sido cobrada pela sua ineficiência no caso, ela respondeu:
- Tenho certeza que ninguém o aguentaria por aqui. É melhor deixá-lo lá mais um tempo. Ele é tão entediante que nem deu vontade de usar a foice.
           Pela primeira vez na vida (e a mais importante de todas), a indecisão de Dante foi decisiva.

domingo, 8 de julho de 2012

A Inútil Arte de Enrolar


                As pessoas têm um dom natural (e involuntário) de tornar as coisas difíceis ainda mais difíceis. Alguma vez na vida, todos nós já enrolamos para dar uma notícia ou explicação. E o pior é que a gente sabe o quanto é ruim quando estamos ansiosos por algo do tipo, e alguém coloca muitos detalhes antes de falar aquilo que tanto esperamos.
                Não existe maneira boa de dar ou receber uma notícia ruim. Qualquer um fica chateado, assustado, até desesperado quando toma conhecimento de algo que pega de surpresa; mas não tem jeito, você tem que ficar sabendo. E logo. Mas quem vai te dar essa notícia é aquele amigo de infância, aquele que estava contigo nos momentos mais felizes, mais tristes, mais bizarros, enfim, todos. Ele se preocupa contigo. Te liga e começa com a velha conversa:
- Então, fulano, não é nada sério tá, não precisa te preocupar, mas é que aconteceu uma coisa...
                A impressão que fica é que o consolo só serviu para tornar a coisa ainda mais difícil. Não sei se alguém já fez alguma pesquisa de porcentagem, ou fundamentou teoricamente, mas na maioria dos casos, quando alguém fala que não é nada sério... é algo sério.
                A entonação do “então” nessa frase também é característica, é um “então” meio arrastado, quase dividido silabicamente. Parece que é a última oportunidade do emissor tentar achar uma maneira menos impactante de falar o que tem de ser falado.
                Certa vez, um conhecido me relatou que estava tentando terminar com a namorada há mais de um ano, mas não queria deixá-la triste, pois gostava muito dela, não tinha nenhuma mágoa. Toda vez que tentava, pensava nas consequências e adiava mais uma vez. Quanto mais adiava, mais estranha ela ficava, como se já soubesse que ele não queria mais. Depois de muitos amigos o aconselharem, ele encheu-se de coragem e foi ao encontro dela, para terminar tudo de uma vez e se livrar daquele peso que sentia na consciência. Ligou para ela e combinou de passar em sua casa naquele dia mesmo.
                Quando chegou, entrou e falou logo de cara:
- Preciso conversar contigo.
- Eu também. – disse ela, com certa preocupação, já que não entendia direito o porquê do distanciamento dele.
- Bom, não é nada sério, não precisa ficar preocupada, mas o que eu preciso te dizer é que... bom... a gente está junto há tanto tempo, e construímos tanta coisa legal... Eu agradeço todos os dias por te ter comigo. Mas a questão é que nos últimos tempos... bom... nos últimos tempos, apesar de ver todas as coisas boas que a gente tem, eu tenho sentido que por mais que a gente se goste, e tu sejas uma mulher maravilhosa, eu...
- Desculpa, mas eu preciso falar logo... – disse ela, apreensiva – eu quero terminar contigo.
                 Se não fosse pelo corte abrupto, ele teria adiado mais uma vez.

domingo, 1 de julho de 2012

O Vendedor de Pastéis


                Um rico empresário da cidade fazia todos os dias o mesmo trajeto até sua empresa. Todos os dias passava por uma rua onde ambulantes vendiam seus produtos aos transeuntes, e ficava pensando:
- Pobres coitados.
                Certo dia, cheio de ironia no pensamento, ele resolveu parar diante de um desses ambulantes para passar sua larga experiência, e quem sabe poder ajudar um pouco um “pobre coitado”, só por caridade. Parou na frente de um senhor de aproximadamente sessenta anos, com a coluna bastante prejudicada pelos anos, e ralos cabelos brancos sobre a cabeça enrugada. O homem fritava pastéis e tinha uma placa em frente à sua barraquinha que dizia apenas: “Pastéis a R$2,00”.
                Ao mesmo tempo em que olhava para aquele homem que parecia a personificação do desânimo, via que logo ao lado existiam tantos outros vendedores de pastéis, com barraquinhas muito melhor instaladas e a preços bastante inferiores. Pensou consigo o quanto aquele homem era idiota. Eram oito horas da manhã, e já no início do expediente o ponto do pobre homem estava vazio, enquanto todos os outros fervilhavam de gente atrasada para o trabalho. Prontamente, o rico empresário, com sua larga experiência, chegou próximo ao velho homem e disse:
- O senhor não vê que perde toda a freguesia por conta do mau ponto e do preço? Em pouco tempo o senhor vai quebrar! Precisa tomar alguma providência!
                O velho homem, seguindo encolhido em sua velha cadeira, esforçou-se e olhou para o homem engravatado e no auge dos quarenta anos que estava à sua frente e com uma voz fraca indagou:
- O senhor quer um pastel?
- Claro que não! Vou comprar onde é mais vantajoso!
- Então não se meta no meu negócio.
- Além de tudo o atendimento é péssimo! O senhor não terá outro caminho senão a falência!
                Dizendo isto, o empresário virou as costas, comprou o pastel em uma barraca qualquer que estava vendendo mais barato e seguiu para sua empresa. Jogou metade do pastel fora no meio do caminho pois estava muito gorduroso.
                Todos os dias ele passava pela ruela estreita dos ambulantes e via o velho homem equânime sentado no mesmo lugar e se admirava com o fato de ele continuar tentando. Os anos se passaram e as empresas do grupo do homem mais rico da cidade começaram a decair. Em dez anos, ele perdera todo o patrimônio, todo o dinheiro e até mesmo toda a família. A situação ficou pior, e ele se viu sem dinheiro para poder se alimentar. Numa atitude desesperada, por mais humilhante que fosse a ele segundo suas próprias convicções, resolveu se tornar ambulante também. Pensou consigo mesmo que com a experiência que tinha, iria comprar os ingredientes mais baratos para poder fritar os pastéis mais baratos daquela rua e poder enfim conseguir algum dinheiro. E foi o que fez. Investiu as últimas notas que tinha em uma pequena barraca e em algumas panelas.
                No primeiro dia de seu novo emprego, foi até aquela rua e instalou-se casualmente ao lado do velho homem que dez anos antes fora orientado por ele, mas que mesmo assim continuava ali do mesmo jeito de sempre. A impressão que o ex-empresário tinha é que ele tinha ficado os dez anos parado no mesmo lugar.
                No primeiro dia de vendas, aconteceu aquilo que o antigo homem de negócios já sabia: ele vendeu todos os pastéis que tinha preparado e teve uma pequena margem de lucro, enquanto que o velho homem ao lado não vendeu sequer um. Não lhe pareceu conveniente falar com aquele senhor novamente, mas ficou vibrando dentro de si pelo êxito no primeiro dia de trabalho. Ao mesmo tempo se questionava como aquele homem sobrevivia, se vendia tão pouco.
                No segundo dia de trabalho as mesmas pessoas passaram em frente à barraca de todos os ambulantes que venderam tudo o que tinham no dia anterior e compraram somente pastéis do velho homem que vendia ao dobro do preço. Desesperados, os outros vendedores começaram a baixar o preço de seus pastéis à quase zero e nem assim conseguiam desovar seus produtos. Atônito, o ex-empresário olhava para o velho senhor, que agora empilhava notas de dinheiro.
                Percebendo o olhar do “jovem aprendiz”, o velho olhou também para ele e proferiu:
- O senhor não vê que perde toda a freguesia por conta do mau ponto e do preço? Em pouco tempo o senhor vai quebrar! Como todos que passam por aqui veem a falência no dia seguinte.