Ela abriu o
e-mail e viu que tinha um dele. Pensou que fosse um daqueles normais de sempre,
pedindo para emprestar um livro ou um CD, avisando que tinha esquecido de pegar
o celular com ela, ou algo do gênero. Eles já se conheciam há bastante tempo.
Eram vizinhos, amigos de infância. Iam para várias festas juntos, e viviam
sendo cupido um do outro. Chegavam na balada juntos, mas raramente isso
acontecia na volta. Tinham uma relação muito cordial e fraterna. Por essas informações
iniciais, já se sabe onde essa história vai dar.
Abriu a
mensagem e se surpreendeu com o conteúdo. Ele se declarava um irremediável apaixonado,
com todas as letras, sem a menor margem para dúvidas ou outras interpretações.
A cada linha que lia, ficava mais incrédula, mais assustada. Como nunca tinha
percebido nada?! Logo ela, que era tão perspicaz... Pela primeira vez na vida,
se sentia constrangida em ligar para ele para falar sobre alguma coisa, porém, tinha que fazer isso. Bem, ele não citou seu nome em nenhum momento. Poderia
ter se enganado. Poderia ter se enganado? Claro que sim, devia ser um grande
mal entendido.
Leu tudo outra
vez para ter certeza de que não entendeu nada errado. Resolveu ligar de uma
vez:
- Pelo amor de Deus, vou ter algum
tipo de receio em falar com ele depois de todos esses anos?! – pensou.
- Alô?
- Oi, eu recebi um e-mail teu
muito estranho! O que significa?
- Que e-mail?
- Um cheio de negócios de amor e
sei-lá-o-quê. Andou bebendo é?
Os
dois começaram a rir e ela se certificou de que havia algo errado, algum
engano.
- É que na verdade eu escrevi
esse e-mail para aquela menina que estou ficando. Mas como sempre faço, quis
saber o que tu achavas. Depois acabei esquecendo de escrever sobre o que se
tratava, mandei só o que eu ia mandar pra ela. Ficou estranho mesmo, foi mal
aí...
- Tá tudo certo, fica tranquilo.
E olha, pode mandar, ficou muito bom, se depois dessa ela não cair na tua rede,
desiste, porque essa aí deve ter um coração de pedra...
- Tá bom, valeu o conselho. Tá de
bobeira? Não quer comer uma pizza?
- Pode ser, eu peço lá. Passa no
mercado e traz alguma coisa pra beber.
- Em meia hora tô aí.
- Tá bom. Tchau.
Os
dois desligaram o telefone. Nunca saberiam disso, mas fizeram a mesma cara, ao
mesmo tempo. Com seus botões, ela raciocinou:
- Sabe que não seria má ideia...
Mas claro que não. Foi só um mal entendido.
Com seus botões, ele raciocinou:
- Eu deveria ter falado que era pra ela. Não, foi melhor assim. Devo estar pensando bobagem. É
coisa da minha cabeça. É só um mal entendido.
Se
não fosse um mal entendido, eles poderiam, quem sabe, ser felizes para sempre.