domingo, 8 de julho de 2012

A Inútil Arte de Enrolar


                As pessoas têm um dom natural (e involuntário) de tornar as coisas difíceis ainda mais difíceis. Alguma vez na vida, todos nós já enrolamos para dar uma notícia ou explicação. E o pior é que a gente sabe o quanto é ruim quando estamos ansiosos por algo do tipo, e alguém coloca muitos detalhes antes de falar aquilo que tanto esperamos.
                Não existe maneira boa de dar ou receber uma notícia ruim. Qualquer um fica chateado, assustado, até desesperado quando toma conhecimento de algo que pega de surpresa; mas não tem jeito, você tem que ficar sabendo. E logo. Mas quem vai te dar essa notícia é aquele amigo de infância, aquele que estava contigo nos momentos mais felizes, mais tristes, mais bizarros, enfim, todos. Ele se preocupa contigo. Te liga e começa com a velha conversa:
- Então, fulano, não é nada sério tá, não precisa te preocupar, mas é que aconteceu uma coisa...
                A impressão que fica é que o consolo só serviu para tornar a coisa ainda mais difícil. Não sei se alguém já fez alguma pesquisa de porcentagem, ou fundamentou teoricamente, mas na maioria dos casos, quando alguém fala que não é nada sério... é algo sério.
                A entonação do “então” nessa frase também é característica, é um “então” meio arrastado, quase dividido silabicamente. Parece que é a última oportunidade do emissor tentar achar uma maneira menos impactante de falar o que tem de ser falado.
                Certa vez, um conhecido me relatou que estava tentando terminar com a namorada há mais de um ano, mas não queria deixá-la triste, pois gostava muito dela, não tinha nenhuma mágoa. Toda vez que tentava, pensava nas consequências e adiava mais uma vez. Quanto mais adiava, mais estranha ela ficava, como se já soubesse que ele não queria mais. Depois de muitos amigos o aconselharem, ele encheu-se de coragem e foi ao encontro dela, para terminar tudo de uma vez e se livrar daquele peso que sentia na consciência. Ligou para ela e combinou de passar em sua casa naquele dia mesmo.
                Quando chegou, entrou e falou logo de cara:
- Preciso conversar contigo.
- Eu também. – disse ela, com certa preocupação, já que não entendia direito o porquê do distanciamento dele.
- Bom, não é nada sério, não precisa ficar preocupada, mas o que eu preciso te dizer é que... bom... a gente está junto há tanto tempo, e construímos tanta coisa legal... Eu agradeço todos os dias por te ter comigo. Mas a questão é que nos últimos tempos... bom... nos últimos tempos, apesar de ver todas as coisas boas que a gente tem, eu tenho sentido que por mais que a gente se goste, e tu sejas uma mulher maravilhosa, eu...
- Desculpa, mas eu preciso falar logo... – disse ela, apreensiva – eu quero terminar contigo.
                 Se não fosse pelo corte abrupto, ele teria adiado mais uma vez.

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