As
pessoas têm um dom natural (e involuntário) de tornar as coisas difíceis ainda
mais difíceis. Alguma vez na vida, todos nós já enrolamos para dar uma notícia
ou explicação. E o pior é que a gente sabe o quanto é ruim quando estamos ansiosos
por algo do tipo, e alguém coloca muitos detalhes antes de falar aquilo que
tanto esperamos.
Não
existe maneira boa de dar ou receber uma notícia ruim. Qualquer um fica
chateado, assustado, até desesperado quando toma conhecimento de algo que pega
de surpresa; mas não tem jeito, você tem que ficar sabendo. E logo. Mas quem
vai te dar essa notícia é aquele amigo de infância, aquele que estava contigo
nos momentos mais felizes, mais tristes, mais bizarros, enfim, todos. Ele se preocupa
contigo. Te liga e começa com a velha conversa:
- Então, fulano, não é nada sério
tá, não precisa te preocupar, mas é que aconteceu uma coisa...
A
impressão que fica é que o consolo só serviu para tornar a coisa ainda mais
difícil. Não sei se alguém já fez alguma pesquisa de porcentagem, ou
fundamentou teoricamente, mas na maioria dos casos, quando alguém fala que não
é nada sério... é algo sério.
A
entonação do “então” nessa frase também é característica, é um “então” meio
arrastado, quase dividido silabicamente. Parece que é a última oportunidade do
emissor tentar achar uma maneira menos impactante de falar o que tem de ser
falado.
Certa
vez, um conhecido me relatou que estava tentando terminar com a namorada há
mais de um ano, mas não queria deixá-la triste, pois gostava muito dela, não
tinha nenhuma mágoa. Toda vez que tentava, pensava nas consequências e adiava
mais uma vez. Quanto mais adiava, mais estranha ela ficava, como se já soubesse
que ele não queria mais. Depois de muitos amigos o aconselharem, ele encheu-se
de coragem e foi ao encontro dela, para terminar tudo de uma vez e se livrar
daquele peso que sentia na consciência. Ligou para ela e combinou de passar em
sua casa naquele dia mesmo.
Quando
chegou, entrou e falou logo de cara:
- Preciso conversar contigo.
- Eu também. – disse ela, com
certa preocupação, já que não entendia direito o porquê do distanciamento dele.
- Bom, não é nada sério, não
precisa ficar preocupada, mas o que eu preciso te dizer é que... bom... a gente
está junto há tanto tempo, e construímos tanta coisa legal... Eu agradeço todos
os dias por te ter comigo. Mas a questão é que nos últimos tempos... bom... nos
últimos tempos, apesar de ver todas as coisas boas que a gente tem, eu tenho
sentido que por mais que a gente se goste, e tu sejas uma mulher maravilhosa,
eu...
- Desculpa, mas eu preciso falar
logo... – disse ela, apreensiva – eu quero terminar contigo.
Se não fosse pelo corte abrupto,
ele teria adiado mais uma vez.
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