terça-feira, 28 de agosto de 2012

Rede Cara de Paisagem de Televisão


                Miguel sempre sonhou com aquele momento. Finalmente, estava diante de uma plateia de quinhentas pessoas, e outros cem milhões lhe acompanhavam pela televisão nos quatro cantos do país. Apesar de todo o ensaio que fizera em casa durante toda a vida para aquele momento, ele não tinha a menor ideia de como seria na hora. Parecia até ser um sonho surreal que agora se arquitetava em sua frente. Bizarro.
                Os jurados começaram a se entreolhar e o apresentador já arrumava o terno engomado. O intervalo comercial estava acabando e entrariam no ar em 5, 4, 3, 2, 1.
                As luzes começaram a girar, as gruas vinham de trás da plateia fechando na sequência num primeiro plano do apresentador, que começou a proferir:
- Eles disputaram este título por seis meses. Seus talentos foram postos à prova. Estes dois homens que vocês veem na tela de sua televisão eliminaram mais de cinquenta mil concorrentes, e agora estão muito próximos de realizar seus sonhos de infância, serem reconhecidos para sempre como “o grande vencedor” do mais disputado programa de talentos da história. Mas infelizmente só temos a possibilidade de dar esta honraria a um deles; o resultado já está computado. Podemos divulgar agora quem é o dono do título mais cobiçado do ano!
                Ao dizer isso, o apresentador incendiou a plateia; todos gritavam, batiam palmas, ávidos pelo resultado. Para segurar a audiência, que já deixava a emissora concorrente quase trinta pontos atrás, o apresentador deu uma pequena enrolada:
- E os jurados, tem algo a dizer?
                Miguel e seu concorrente já se mostravam impacientes, mas tentavam manter um sorriso terno e sereno no rosto. Um dos jurados pediu a palavra e pontuou:
- Só quero dizer a vocês que independente de quem for o campeão nesta noite, vocês dois já são vencedores.
- Os dois são vencedores é o caramba! – pensou Miguel – Se ele ganhar eu perco, e vice-versa... Vê se tem cabimento, os dois são vencedores?! – concluiu o pensamento, revoltado, enquanto sorria de orelha a orelha para o jurado e balançava a cabeça consentindo.
                Por um momento, Miguel desligou de toda aquela adrenalina e pensou como seria se ganhasse. Ele tinha se preparado a vida toda, mal conseguia acreditar em tudo aquilo que estava vivendo. O programa em que ele viu tantas referências de sua carreira nascerem agora poderia transformá-lo em uma dessas referências. No fundo, ele tinha certeza que o programa já era dele. Era o mais carismático, e tinha muito talento; não é que o concorrente fosse ruim, mas tinha menos bagagem que ele. Era um caminho natural para as coisas.
                Era hora do resultado:
- Bem, chega de espera – disse o apresentador – com noventa por cento da aprovação popular, o vencedor é... Fernando Onda!!!
                Confetes caíram do teto do estúdio, uma música clássica de vitória começou a tocar, o vencedor se ajoelhou no chão emocionado, e Miguel chegou ao impasse: se abraçasse o oponente, estaria sendo falso demais, pois estava com ódio daquele cara naquele momento. Se não abraçasse, seria o pior perdedor da história. Os créditos subiram e a cara de Miguel apareceu na tela, com uma expressão equânime aliado a uma incredulidade que chegava a ser cômica. Olhou para a câmera e forçou um sorriso com o canto da boca, que não convenceu nem o mais desligado dos telespectadores.
                E a emoção se transformou em comédia.

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Tempo Do Êpa


Diante de tanta coisa nova e moderna que se encontra na internet hoje em dia, tenho reparado que cada vez mais as redes sociais e páginas diversas que estão surgindo têm se dedicado a procurar e divulgar coisas antigas, que praticamente todo mundo esqueceu, mas que fizeram parte da infância. Ah, essas páginas geralmente dão uma nostalgia corrosiva bastante agradável (acho que só eu entendi isso).
Não sei se todo mundo é assim, mas coisas antigas mexem muito comigo. Brinquedos da infância, programas de televisão, ou simplesmente algo da casa da avó que a gente nunca esqueceu são reapresentados para nós agora, depois de tantos carnavais, e mesmo assim são capazes de despertar o exato sentimento daquela época. A gente se transporta para lá, e quase não dá vontade de voltar. Era tudo tão simples e tão bom...
Naquela época, a gente ouvia um som animal no toca-fita e a desenrolava desesperadamente dentro do rádio depois de ouvir um agoniante som do cantor engasgando; o luxo maior era ter um rádio com toca-fita auto-reverse no carro. Imagine não precisar virar o lado! Era muita modernidade!
Tive aulas de datilografia. A gente colocava esparadrapos sobre as teclas, porque um dos exercícios era conseguir bater (literalmente) um texto inteiro sem olhar para o teclado. Isso sem contar que a velocidade de digitação (pancadas) também era muito apreciada. Eu achava as máquinas de escrever o máximo. Imaginem o que foi meu primeiro contato com um computador; achei aquilo a coisa mais incrível que já tinha visto. Lembro-me deste dia. Estava na casa de uma tia que tinha comprado o primeiro computador da redondeza. Estava lá eu, embasbacado com um negócio em que se apertavam as letras do próprio nome, e tudo ia aparecendo naquela “TV” (?!) diante dos meus olhos, como se fosse mágica. Fui para casa com meu nome impresso numa folha. Levei para a escola no outro dia e mostrei pra todo mundo.
Apresentei trabalhos em disquetes. Sempre salvava o mesmo trabalho em cinco diferentes, e mesmo assim não conseguia abrir em algumas ocasiões. O barulho dele dentro do computador, como se estivesse quebrando pra tentar abrir o teu arquivo, era algo que causava bastante apreensão.
Hoje entendo bem quando as pessoas mais velhas falam que não adianta tentar explicar por que antigamente as coisas pareciam melhores; eu já não consigo explicar direito para os mais jovens que eu. Só sei que era melhor e ponto.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

O Agoniante "Não Poder Fazer Nada"


                No meio da balada, Joana teve um insight:
- Meu Deus! Deixei o ferro de passar ligado!
                A boate ficava a 100km de casa. O que fazer? A casa já devia ter queimado. Ela via o fogo corroendo todos os cômodos, as labaredas altas. Os vizinhos já deviam ter chamado os bombeiros, que não estavam conseguindo conter o incêndio. Equipes de reportagem e fotógrafos já deviam estar se dirigindo ao local para registrar todo o ocorrido. E só estavam ainda esperando por ela que, aos prantos, relataria o horror da experiência de sua casa ter pegado fogo. Seria a manchete do dia seguinte.
                Não teve outro reflexo senão enfrentar a multidão para sair daquela festa, cuja música ela nem ouvia mais de tão nervosa, e ir para casa, ver se conseguia salvar alguma coisa. Mas ela não conseguia correr. Tinha muita gente. Levou mais de quinze minutos para sair daquele lugar; foi no embalo de uma música eletrônica de compasso quaternário, aos poucos, sendo empurrada para fora da boate (três dias depois ela ainda podia sentir o “tum-tum-tum-tum”).
                Saiu correndo. Não sabia ao certo o que estava fazendo, nem estava tão plena assim de suas faculdades mentais, mas sabia que precisava urgentemente encontrar um meio de transporte.
- Táxi. Qualquer um, pelo amor de Deus – pensou.
                Chegou próximo a um e tentou acordar o taxista, que roncava como um bugio estressado. Chegou a dar tapas na cara dele, já aos prantos, pois cada segundo que perdia parecia uma eternidade... nada. Parecia que tinha morrido. Não, morrido não, morto não fazia tanto barulho, mas talvez tivesse sido teletransportado para outra dimensão e estivesse incomunicável. Foi para a parada de ônibus. Já havia passado uma hora desde aquele maldito insight. Tudo já tinha passado por sua cabeça. Mas tudo mesmo. Cada minuto que passava era agoniante, ela pensava que nada mais teria sobrado. As fotos, meu Deus, as fotos do casamento da semana passada...
- Como vou dizer para o cliente que queimou tudo?! Eles vão me queimar também!
                E eis que lá longe, surge uma luz meio apagada, em um ônibus que parecia perder pedaços a cada metro rodado. Mas o letreiro tinha aquele endereço. Faltavam 100km, mas pelo menos ela estava mais perto...
                Pegou a droga do ônibus que fazia mais barulho que duzentas indústrias metalúrgicas juntas, e começou a rezar para chegar em casa rápido. Chegava a se contorcer no banco de tanta ansiedade. Faltando 10km para chegar, depois de mais de duas horas de viagem (o ônibus raramente passava dos 40), a engenhoca quebrou.
                Não dava mais para esperar. Os nervos de Joana esqueceram do sedentarismo e correram 10km, um pouco chorando, um pouco rindo, com a maquiagem toda borrada, mas ela ia de encontro àquela que seria a maior emoção de sua vida. Chegou ao condomínio e viu a casa lá. Intacta. Do jeito que ela tinha deixado. Um alívio tão grande, mas tão grande, que ela tinha vontade de abraçar cada tijolo. Saiu correndo ao seu encontro, e ao abrir a porta, encontrou a mãe:
- Mãe?! O que é que tu tá fazendo aqui?
- Ué, filha, tu me ligou ontem à noite lá pelas dez e disse pra eu vir aqui tirar o ferro da tomada...

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Terceiros


               Muitas vezes nos pegamos em situações em que gostaríamos muito de ser um avestruz para poder enfiar a cabeça debaixo da terra. De forma resumida, hoje trato da terrível situação de ser convidado a resolver um problema que não é seu.
                Pais e filhos, casais de namorados, colegas de trabalho, enfim, em todas as relações humanas tem um momento em que começam a acontecer atritos. As pessoas vão engolindo sapos pacientemente, até que não tem mais jeito. Rola uma D.R., ninguém segura, a não ser que tu sejas o azarado que aparece bem na hora.
                Certas coisas precisam ser resolvidas sem a intromissão de terceiros. Mas é tão mais fácil quando o terceiro aparece para ser alguém em quem pôr a culpa que as pessoas fazem deste processo um mecanismo automático. Posso estar sendo muito prolixo para chegar no ponto em que quero, mas é importante uma breve introdução teórica antes de mostrar a situação clássica.
              A discussão transcorre normalmente. As duas pessoas ficam se olhando, reprovando todas as falas recíproca e simultaneamente, até que tu apareces, sem o menor aviso prévio, e sem a menor noção do que te espera. Os dois param um pouco de brigar e te olham, com aquela cara de “apareceu na hora certa”. Depois de um breve cumprimento, a discussão segue, mas agora, com um diferencial. Tu tens a incumbência de ser o grande juiz da partida. Receberá críticas e elogios, por isso é melhor estar preparado psicologicamente. As falas são clássicas:
- Eu já te disse! Tu precisas mudar, fazer as coisas diferentes para ter uma vida diferente, tá aqui fulano que não me deixa mentir!
          Depois desse tipo de fala, ambos olham para a sua cara e demonstram expressões bastante diferentes. O ofendido te olha com uma cara de “não acredito que você acredita nisso!”, e o ofensor te olha com aquela cara de “me dá razão logo!”. E tu se sentes verdadeiramente encurralado. Três soluções possíveis:
1. Dar risada, e fingir que não entendeu;
2. Fazer uma cara de cão arrependido, e dizer que não quer se meter nisso;
3. Tomar as dores de alguém e entrar na briga, tendo consciência das consequências de assumir um lado.
Não que isso seja um manual, mas acho que às vezes é bom viver um pouco de cada. Ser um terceiro é praticamente sempre uma grande enrascada, então, não existem opções que te deixem completamente a salvo. Proponho que tenhamos mais paciência e não envolvamos terceiros em nossos problemas. Para ser feliz, e encarar com mais naturalidade os problemas, eu acho que prefiro me apegar à opção número 1.

segunda-feira, 30 de julho de 2012

A Força do Mal Entendido


Ela abriu o e-mail e viu que tinha um dele. Pensou que fosse um daqueles normais de sempre, pedindo para emprestar um livro ou um CD, avisando que tinha esquecido de pegar o celular com ela, ou algo do gênero. Eles já se conheciam há bastante tempo. Eram vizinhos, amigos de infância. Iam para várias festas juntos, e viviam sendo cupido um do outro. Chegavam na balada juntos, mas raramente isso acontecia na volta. Tinham uma relação muito cordial e fraterna. Por essas informações iniciais, já se sabe onde essa história vai dar.
Abriu a mensagem e se surpreendeu com o conteúdo. Ele se declarava um irremediável apaixonado, com todas as letras, sem a menor margem para dúvidas ou outras interpretações. A cada linha que lia, ficava mais incrédula, mais assustada. Como nunca tinha percebido nada?! Logo ela, que era tão perspicaz... Pela primeira vez na vida, se sentia constrangida em ligar para ele para falar sobre alguma coisa, porém, tinha que fazer isso. Bem, ele não citou seu nome em nenhum momento. Poderia ter se enganado. Poderia ter se enganado? Claro que sim, devia ser um grande mal entendido.
Leu tudo outra vez para ter certeza de que não entendeu nada errado. Resolveu ligar de uma vez:
- Pelo amor de Deus, vou ter algum tipo de receio em falar com ele depois de todos esses anos?! – pensou.
- Alô?
- Oi, eu recebi um e-mail teu muito estranho! O que significa?
- Que e-mail?
- Um cheio de negócios de amor e sei-lá-o-quê. Andou bebendo é?
             Os dois começaram a rir e ela se certificou de que havia algo errado, algum engano.
- É que na verdade eu escrevi esse e-mail para aquela menina que estou ficando. Mas como sempre faço, quis saber o que tu achavas. Depois acabei esquecendo de escrever sobre o que se tratava, mandei só o que eu ia mandar pra ela. Ficou estranho mesmo, foi mal aí...
- Tá tudo certo, fica tranquilo. E olha, pode mandar, ficou muito bom, se depois dessa ela não cair na tua rede, desiste, porque essa aí deve ter um coração de pedra...
- Tá bom, valeu o conselho. Tá de bobeira? Não quer comer uma pizza?
- Pode ser, eu peço lá. Passa no mercado e traz alguma coisa pra beber.
- Em meia hora tô aí.
- Tá bom. Tchau.
             Os dois desligaram o telefone. Nunca saberiam disso, mas fizeram a mesma cara, ao mesmo tempo. Com seus botões, ela raciocinou:
- Sabe que não seria má ideia... Mas claro que não. Foi só um mal entendido.
Com seus botões, ele raciocinou:
- Eu deveria ter falado que era pra ela. Não, foi melhor assim. Devo estar pensando bobagem. É coisa da minha cabeça. É só um mal entendido.
              Se não fosse um mal entendido, eles poderiam, quem sabe, ser felizes para sempre.

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Uma Constante Efêmera


Os anos vão chegando, e a gente vai se dando conta de algumas coisas. Nem sempre é fácil simplesmente enfiar na nossa cabeça algumas ideias, mas com o tempo, a gente aprende a aceitá-las.
Em algum momento, acho que todos acreditamos que haveria um dia em que seríamos plenamente felizes, em todos os âmbitos, de todas as formas possíveis. Você pode até dizer que nunca pensou a respeito, mas tem de admitir que em algum momento, bem lá no fundo, foi nisso que você acreditou; ou quis acreditar.
O fato é que a felicidade é efêmera. Longe de mim querer ser o pessimista, o infeliz, o sem perspectivas, pelo contrário, já sonhei e ainda sonho às vezes com uma felicidade incondicional e incessante, mas infelizmente, temos que admitir que ela não existe.
Quando digo que a felicidade é efêmera, não quero dizer que a sentimos uma vez e depois nunca mais. Quero dizer que ela é dada em doses homeopáticas, e que essas pequenas quantidades são as que nos mantêm vivos, porque compensam as coisas ruins que acontecem. Nos surpreendemos com pessoas que têm vidas muito mais difíceis que as nossas e dizem que são felizes, e que em nenhum dia acordam sem um sorriso no rosto. Isso não significa que elas sejam felizes o tempo todo, que não têm problemas. Ao contrário, os problemas são muitos, mas por isso mesmo essas pessoas se agarram com todas as forças às coisas boas que lhes acontecem, e isso que faz com que sejam capazes de resolver com mais naturalidade aquilo que é difícil.
A felicidade é uma constante efêmera porque não se manifesta o tempo todo, mas quando se manifesta, depende da nossa boa vontade reconhecê-la. O reconhecimento não tem nenhuma influência sobre acontecimentos ruins, depende exclusivamente de nossa boa vontade.
Busco aprender isso todos os dias. Não é fácil, mas é importante. Tento levar comigo e passar para os outros o seguinte pensamento: está feliz, está tudo dando certo? Aproveite. Abra bem os olhos e viva com a maior intensidade possível. Não vai ser assim pra sempre. Nada é para sempre. Está triste, está tudo dando errado? Calma. Interprete como aprendizado. Não vai ser assim pra sempre. Nada é para sempre.

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Decisões Indecisas


Quando nasceu, Dante ficou quase duas horas chorando. Não se aquietava nem no colo da mãe, nem sob a vigilância dos médicos, nem sozinho no berço, nem no colo do pai, nem no colo do irmão, e nem no colo da avó. O bebê só fechou a boca quando foi levado para um quarto separado, só para ele, sob o cuidado exclusivo de uma enfermeira.
Os anos passaram, e Dante se mostrou uma criança extremamente inquieta. Brincava com carrinhos, jogava futebol, bola de gude e andava de bicicleta. Ao mesmo tempo. Apesar de ser “multifuncional”, nada lhe satisfazia plenamente, e ele largava tudo e ficava imediatamente emburrado.
Na adolescência, certa vez, viu-se apaixonado por cinco meninas ao mesmo tempo. No momento em que cada uma delas parecia dar-lhe alguma chance, ele desencantava e a substituía por outra menina ainda mais difícil de conquistar. Mas o número permanecia o mesmo: cinco. Parecia uma promessa.
Todos estes acontecimentos servem para dar uma introdução ao que foi a vida profissional de Dante. Aos 18, quando resolveu que ia procurar algum emprego para ser dono do próprio nariz, distribuiu seu currículo para 100% dos empregadores da cidade. Mas parecia que ele não tinha muito foco, já que se colocou à disposição de uma pequena infinidade de funções: caminhoneiro, advogado, pedreiro, médico, padeiro, modelo, contador, músico, piloto de aeronaves, astronauta e jornalista. É importante pontuar que mesmo sem experiência, ele fez questão de ser entrevistado. Para todas essas vagas.
Pulando a parte em que ele tentou escolher com quem se casar, e chegando ao momento em que ele teve o primeiro filho, lá se vão 15 anos. Ele já estava com 35, e preparava-se para a maior emoção de sua vida. A maior emoção? Não. Uma das maiores. Pode ser comparada à aprovação na carteira de motorista, ao dia da formatura, ao dia do casamento, ao aniversário de 18 anos, à primeira namorada... Bem, a tantas coisas que não cabe listar neste momento. Ele estava para ter o primeiro filho. Tinha 120 nomes preferidos, e passava noites em claro pesquisando e tentando pelo menos diminuir a gama de possibilidades. O filho nasceu e ele deixou a esposa escolher qualquer nome, pois já tinha dado um nó no próprio cérebro tentando decidir.
No trabalho (um grande conglomerado de empresas que oferecia serviços de toda sorte, desde planos de saúde até construção de edifícios) as pessoas precisavam levar as duas opções do novo cartão de visitas com três meses de antecedência. A esposa precisava deixar quinze gravatas enfileiradas na cama no sábado à tarde, para que ele pudesse decidir até a segunda. O açougueiro precisava esconder a variedade de carne e dizer que só tinha sobrado uma.
Todas as pessoas que o conheciam, desde o seu maior desafeto até a própria mãe conseguiam concordar em uma coisa: a indecisão de Dante lhe fazia muito mal. Ele nunca conseguiria coisas boas se comportando dessa forma. E cansaram de dizer isso a ele.
Eis que mais alguns anos se passaram, e uma famosa conhecida dos humanos veio visitar “Seu Dante”. Vestia preto. Ela queria levá-lo para um lugar onde ele encontraria novamente seus pais, seus velhos amigos, e tantas outras coisas das quais ele não tinha resposta agora. Ela o deixou confuso com essa conversa. Se arrependeu.
Ele lhe fez tantas perguntas, mas tantas perguntas, que ela simplesmente sumiu e o deixou falando sozinho. Ao entregar o relatório diário a seu coordenador, e obviamente, ter sido cobrada pela sua ineficiência no caso, ela respondeu:
- Tenho certeza que ninguém o aguentaria por aqui. É melhor deixá-lo lá mais um tempo. Ele é tão entediante que nem deu vontade de usar a foice.
           Pela primeira vez na vida (e a mais importante de todas), a indecisão de Dante foi decisiva.

domingo, 8 de julho de 2012

A Inútil Arte de Enrolar


                As pessoas têm um dom natural (e involuntário) de tornar as coisas difíceis ainda mais difíceis. Alguma vez na vida, todos nós já enrolamos para dar uma notícia ou explicação. E o pior é que a gente sabe o quanto é ruim quando estamos ansiosos por algo do tipo, e alguém coloca muitos detalhes antes de falar aquilo que tanto esperamos.
                Não existe maneira boa de dar ou receber uma notícia ruim. Qualquer um fica chateado, assustado, até desesperado quando toma conhecimento de algo que pega de surpresa; mas não tem jeito, você tem que ficar sabendo. E logo. Mas quem vai te dar essa notícia é aquele amigo de infância, aquele que estava contigo nos momentos mais felizes, mais tristes, mais bizarros, enfim, todos. Ele se preocupa contigo. Te liga e começa com a velha conversa:
- Então, fulano, não é nada sério tá, não precisa te preocupar, mas é que aconteceu uma coisa...
                A impressão que fica é que o consolo só serviu para tornar a coisa ainda mais difícil. Não sei se alguém já fez alguma pesquisa de porcentagem, ou fundamentou teoricamente, mas na maioria dos casos, quando alguém fala que não é nada sério... é algo sério.
                A entonação do “então” nessa frase também é característica, é um “então” meio arrastado, quase dividido silabicamente. Parece que é a última oportunidade do emissor tentar achar uma maneira menos impactante de falar o que tem de ser falado.
                Certa vez, um conhecido me relatou que estava tentando terminar com a namorada há mais de um ano, mas não queria deixá-la triste, pois gostava muito dela, não tinha nenhuma mágoa. Toda vez que tentava, pensava nas consequências e adiava mais uma vez. Quanto mais adiava, mais estranha ela ficava, como se já soubesse que ele não queria mais. Depois de muitos amigos o aconselharem, ele encheu-se de coragem e foi ao encontro dela, para terminar tudo de uma vez e se livrar daquele peso que sentia na consciência. Ligou para ela e combinou de passar em sua casa naquele dia mesmo.
                Quando chegou, entrou e falou logo de cara:
- Preciso conversar contigo.
- Eu também. – disse ela, com certa preocupação, já que não entendia direito o porquê do distanciamento dele.
- Bom, não é nada sério, não precisa ficar preocupada, mas o que eu preciso te dizer é que... bom... a gente está junto há tanto tempo, e construímos tanta coisa legal... Eu agradeço todos os dias por te ter comigo. Mas a questão é que nos últimos tempos... bom... nos últimos tempos, apesar de ver todas as coisas boas que a gente tem, eu tenho sentido que por mais que a gente se goste, e tu sejas uma mulher maravilhosa, eu...
- Desculpa, mas eu preciso falar logo... – disse ela, apreensiva – eu quero terminar contigo.
                 Se não fosse pelo corte abrupto, ele teria adiado mais uma vez.

domingo, 1 de julho de 2012

O Vendedor de Pastéis


                Um rico empresário da cidade fazia todos os dias o mesmo trajeto até sua empresa. Todos os dias passava por uma rua onde ambulantes vendiam seus produtos aos transeuntes, e ficava pensando:
- Pobres coitados.
                Certo dia, cheio de ironia no pensamento, ele resolveu parar diante de um desses ambulantes para passar sua larga experiência, e quem sabe poder ajudar um pouco um “pobre coitado”, só por caridade. Parou na frente de um senhor de aproximadamente sessenta anos, com a coluna bastante prejudicada pelos anos, e ralos cabelos brancos sobre a cabeça enrugada. O homem fritava pastéis e tinha uma placa em frente à sua barraquinha que dizia apenas: “Pastéis a R$2,00”.
                Ao mesmo tempo em que olhava para aquele homem que parecia a personificação do desânimo, via que logo ao lado existiam tantos outros vendedores de pastéis, com barraquinhas muito melhor instaladas e a preços bastante inferiores. Pensou consigo o quanto aquele homem era idiota. Eram oito horas da manhã, e já no início do expediente o ponto do pobre homem estava vazio, enquanto todos os outros fervilhavam de gente atrasada para o trabalho. Prontamente, o rico empresário, com sua larga experiência, chegou próximo ao velho homem e disse:
- O senhor não vê que perde toda a freguesia por conta do mau ponto e do preço? Em pouco tempo o senhor vai quebrar! Precisa tomar alguma providência!
                O velho homem, seguindo encolhido em sua velha cadeira, esforçou-se e olhou para o homem engravatado e no auge dos quarenta anos que estava à sua frente e com uma voz fraca indagou:
- O senhor quer um pastel?
- Claro que não! Vou comprar onde é mais vantajoso!
- Então não se meta no meu negócio.
- Além de tudo o atendimento é péssimo! O senhor não terá outro caminho senão a falência!
                Dizendo isto, o empresário virou as costas, comprou o pastel em uma barraca qualquer que estava vendendo mais barato e seguiu para sua empresa. Jogou metade do pastel fora no meio do caminho pois estava muito gorduroso.
                Todos os dias ele passava pela ruela estreita dos ambulantes e via o velho homem equânime sentado no mesmo lugar e se admirava com o fato de ele continuar tentando. Os anos se passaram e as empresas do grupo do homem mais rico da cidade começaram a decair. Em dez anos, ele perdera todo o patrimônio, todo o dinheiro e até mesmo toda a família. A situação ficou pior, e ele se viu sem dinheiro para poder se alimentar. Numa atitude desesperada, por mais humilhante que fosse a ele segundo suas próprias convicções, resolveu se tornar ambulante também. Pensou consigo mesmo que com a experiência que tinha, iria comprar os ingredientes mais baratos para poder fritar os pastéis mais baratos daquela rua e poder enfim conseguir algum dinheiro. E foi o que fez. Investiu as últimas notas que tinha em uma pequena barraca e em algumas panelas.
                No primeiro dia de seu novo emprego, foi até aquela rua e instalou-se casualmente ao lado do velho homem que dez anos antes fora orientado por ele, mas que mesmo assim continuava ali do mesmo jeito de sempre. A impressão que o ex-empresário tinha é que ele tinha ficado os dez anos parado no mesmo lugar.
                No primeiro dia de vendas, aconteceu aquilo que o antigo homem de negócios já sabia: ele vendeu todos os pastéis que tinha preparado e teve uma pequena margem de lucro, enquanto que o velho homem ao lado não vendeu sequer um. Não lhe pareceu conveniente falar com aquele senhor novamente, mas ficou vibrando dentro de si pelo êxito no primeiro dia de trabalho. Ao mesmo tempo se questionava como aquele homem sobrevivia, se vendia tão pouco.
                No segundo dia de trabalho as mesmas pessoas passaram em frente à barraca de todos os ambulantes que venderam tudo o que tinham no dia anterior e compraram somente pastéis do velho homem que vendia ao dobro do preço. Desesperados, os outros vendedores começaram a baixar o preço de seus pastéis à quase zero e nem assim conseguiam desovar seus produtos. Atônito, o ex-empresário olhava para o velho senhor, que agora empilhava notas de dinheiro.
                Percebendo o olhar do “jovem aprendiz”, o velho olhou também para ele e proferiu:
- O senhor não vê que perde toda a freguesia por conta do mau ponto e do preço? Em pouco tempo o senhor vai quebrar! Como todos que passam por aqui veem a falência no dia seguinte.