segunda-feira, 13 de agosto de 2012

O Agoniante "Não Poder Fazer Nada"


                No meio da balada, Joana teve um insight:
- Meu Deus! Deixei o ferro de passar ligado!
                A boate ficava a 100km de casa. O que fazer? A casa já devia ter queimado. Ela via o fogo corroendo todos os cômodos, as labaredas altas. Os vizinhos já deviam ter chamado os bombeiros, que não estavam conseguindo conter o incêndio. Equipes de reportagem e fotógrafos já deviam estar se dirigindo ao local para registrar todo o ocorrido. E só estavam ainda esperando por ela que, aos prantos, relataria o horror da experiência de sua casa ter pegado fogo. Seria a manchete do dia seguinte.
                Não teve outro reflexo senão enfrentar a multidão para sair daquela festa, cuja música ela nem ouvia mais de tão nervosa, e ir para casa, ver se conseguia salvar alguma coisa. Mas ela não conseguia correr. Tinha muita gente. Levou mais de quinze minutos para sair daquele lugar; foi no embalo de uma música eletrônica de compasso quaternário, aos poucos, sendo empurrada para fora da boate (três dias depois ela ainda podia sentir o “tum-tum-tum-tum”).
                Saiu correndo. Não sabia ao certo o que estava fazendo, nem estava tão plena assim de suas faculdades mentais, mas sabia que precisava urgentemente encontrar um meio de transporte.
- Táxi. Qualquer um, pelo amor de Deus – pensou.
                Chegou próximo a um e tentou acordar o taxista, que roncava como um bugio estressado. Chegou a dar tapas na cara dele, já aos prantos, pois cada segundo que perdia parecia uma eternidade... nada. Parecia que tinha morrido. Não, morrido não, morto não fazia tanto barulho, mas talvez tivesse sido teletransportado para outra dimensão e estivesse incomunicável. Foi para a parada de ônibus. Já havia passado uma hora desde aquele maldito insight. Tudo já tinha passado por sua cabeça. Mas tudo mesmo. Cada minuto que passava era agoniante, ela pensava que nada mais teria sobrado. As fotos, meu Deus, as fotos do casamento da semana passada...
- Como vou dizer para o cliente que queimou tudo?! Eles vão me queimar também!
                E eis que lá longe, surge uma luz meio apagada, em um ônibus que parecia perder pedaços a cada metro rodado. Mas o letreiro tinha aquele endereço. Faltavam 100km, mas pelo menos ela estava mais perto...
                Pegou a droga do ônibus que fazia mais barulho que duzentas indústrias metalúrgicas juntas, e começou a rezar para chegar em casa rápido. Chegava a se contorcer no banco de tanta ansiedade. Faltando 10km para chegar, depois de mais de duas horas de viagem (o ônibus raramente passava dos 40), a engenhoca quebrou.
                Não dava mais para esperar. Os nervos de Joana esqueceram do sedentarismo e correram 10km, um pouco chorando, um pouco rindo, com a maquiagem toda borrada, mas ela ia de encontro àquela que seria a maior emoção de sua vida. Chegou ao condomínio e viu a casa lá. Intacta. Do jeito que ela tinha deixado. Um alívio tão grande, mas tão grande, que ela tinha vontade de abraçar cada tijolo. Saiu correndo ao seu encontro, e ao abrir a porta, encontrou a mãe:
- Mãe?! O que é que tu tá fazendo aqui?
- Ué, filha, tu me ligou ontem à noite lá pelas dez e disse pra eu vir aqui tirar o ferro da tomada...

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