No
meio da balada, Joana teve um insight:
- Meu Deus! Deixei o ferro de
passar ligado!
A
boate ficava a 100km de casa. O que fazer? A casa já devia ter queimado. Ela
via o fogo corroendo todos os cômodos, as labaredas altas. Os vizinhos já
deviam ter chamado os bombeiros, que não estavam conseguindo conter o incêndio.
Equipes de reportagem e fotógrafos já deviam estar se dirigindo ao local para
registrar todo o ocorrido. E só estavam ainda esperando por ela que, aos
prantos, relataria o horror da experiência de sua casa ter pegado fogo. Seria a
manchete do dia seguinte.
Não
teve outro reflexo senão enfrentar a multidão para sair daquela festa, cuja
música ela nem ouvia mais de tão nervosa, e ir para casa, ver se conseguia
salvar alguma coisa. Mas ela não conseguia correr. Tinha muita gente. Levou
mais de quinze minutos para sair daquele lugar; foi no embalo de uma música
eletrônica de compasso quaternário, aos poucos, sendo empurrada para fora da
boate (três dias depois ela ainda podia sentir o “tum-tum-tum-tum”).
Saiu
correndo. Não sabia ao certo o que estava fazendo, nem estava tão plena assim
de suas faculdades mentais, mas sabia que precisava urgentemente encontrar um
meio de transporte.
- Táxi. Qualquer um, pelo amor de
Deus – pensou.
Chegou
próximo a um e tentou acordar o taxista, que roncava como um bugio estressado.
Chegou a dar tapas na cara dele, já aos prantos, pois cada segundo que perdia
parecia uma eternidade... nada. Parecia que tinha morrido. Não, morrido não,
morto não fazia tanto barulho, mas talvez tivesse sido teletransportado para
outra dimensão e estivesse incomunicável. Foi para a parada de ônibus. Já havia
passado uma hora desde aquele maldito insight. Tudo já tinha passado por sua
cabeça. Mas tudo mesmo. Cada minuto que passava era agoniante, ela pensava que
nada mais teria sobrado. As fotos, meu Deus, as fotos do casamento da semana
passada...
- Como vou dizer para o cliente
que queimou tudo?! Eles vão me queimar também!
E
eis que lá longe, surge uma luz meio apagada, em um ônibus que parecia perder
pedaços a cada metro rodado. Mas o letreiro tinha aquele endereço. Faltavam
100km, mas pelo menos ela estava mais perto...
Pegou
a droga do ônibus que fazia mais barulho que duzentas indústrias metalúrgicas
juntas, e começou a rezar para chegar em casa rápido. Chegava a se contorcer no
banco de tanta ansiedade. Faltando 10km para chegar, depois de mais de duas
horas de viagem (o ônibus raramente passava dos 40), a engenhoca quebrou.
Não
dava mais para esperar. Os nervos de Joana esqueceram do sedentarismo e
correram 10km, um pouco chorando, um pouco rindo, com a maquiagem toda borrada,
mas ela ia de encontro àquela que seria a maior emoção de sua vida. Chegou ao
condomínio e viu a casa lá. Intacta. Do jeito que ela tinha deixado. Um alívio
tão grande, mas tão grande, que ela tinha vontade de abraçar cada tijolo.
Saiu correndo ao seu encontro, e ao abrir a porta, encontrou a mãe:
- Mãe?! O que é que tu tá fazendo
aqui?
- Ué, filha, tu me ligou ontem à
noite lá pelas dez e disse pra eu vir aqui tirar o ferro da tomada...
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