Miguel
sempre sonhou com aquele momento. Finalmente, estava diante de uma plateia de
quinhentas pessoas, e outros cem milhões lhe acompanhavam pela televisão nos
quatro cantos do país. Apesar de todo o ensaio que fizera em casa durante toda
a vida para aquele momento, ele não tinha a menor ideia de como seria na hora.
Parecia até ser um sonho surreal que agora se arquitetava em sua frente.
Bizarro.
Os
jurados começaram a se entreolhar e o apresentador já arrumava o terno engomado.
O intervalo comercial estava acabando e entrariam no ar em 5, 4, 3, 2, 1.
As
luzes começaram a girar, as gruas vinham de trás da plateia fechando na
sequência num primeiro plano do apresentador, que começou a proferir:
- Eles disputaram este título por
seis meses. Seus talentos foram postos à prova. Estes dois homens que vocês
veem na tela de sua televisão eliminaram mais de cinquenta mil concorrentes, e
agora estão muito próximos de realizar seus sonhos de infância, serem
reconhecidos para sempre como “o grande vencedor” do mais disputado programa de
talentos da história. Mas infelizmente só temos a possibilidade de dar esta
honraria a um deles; o resultado já está computado. Podemos divulgar agora quem
é o dono do título mais cobiçado do ano!
Ao
dizer isso, o apresentador incendiou a plateia; todos gritavam, batiam palmas,
ávidos pelo resultado. Para segurar a audiência, que já deixava a emissora
concorrente quase trinta pontos atrás, o apresentador deu uma pequena enrolada:
- E os jurados, tem algo a dizer?
Miguel
e seu concorrente já se mostravam impacientes, mas tentavam manter um sorriso
terno e sereno no rosto. Um dos jurados pediu a palavra e pontuou:
- Só quero dizer a vocês que
independente de quem for o campeão nesta noite, vocês dois já são vencedores.
- Os dois são vencedores é o
caramba! – pensou Miguel – Se ele ganhar eu perco, e vice-versa... Vê se tem
cabimento, os dois são vencedores?! – concluiu o pensamento, revoltado,
enquanto sorria de orelha a orelha para o jurado e balançava a cabeça
consentindo.
Por
um momento, Miguel desligou de toda aquela adrenalina e pensou como seria se
ganhasse. Ele tinha se preparado a vida toda, mal conseguia acreditar em tudo
aquilo que estava vivendo. O programa em que ele viu tantas referências de sua
carreira nascerem agora poderia transformá-lo em uma dessas referências. No
fundo, ele tinha certeza que o programa já era dele. Era o mais carismático, e
tinha muito talento; não é que o concorrente fosse ruim, mas tinha menos
bagagem que ele. Era um caminho natural para as coisas.
Era
hora do resultado:
- Bem, chega de espera – disse o
apresentador – com noventa por cento da aprovação popular, o vencedor é...
Fernando Onda!!!
Confetes
caíram do teto do estúdio, uma música clássica de vitória começou a tocar, o
vencedor se ajoelhou no chão emocionado, e Miguel chegou ao impasse: se
abraçasse o oponente, estaria sendo falso demais, pois estava com ódio daquele
cara naquele momento. Se não abraçasse, seria o pior perdedor da história. Os
créditos subiram e a cara de Miguel apareceu na tela, com uma expressão equânime
aliado a uma incredulidade que chegava a ser cômica. Olhou para a câmera e
forçou um sorriso com o canto da boca, que não convenceu nem o mais desligado
dos telespectadores.
E
a emoção se transformou em comédia.
O Miguel, como eu, é um péssimo perdedor. Talvez não seja por não gostar de perder, e sim por querer sempre ganhar. Enfim, eu já comecei a me contentar em sempre ser pior do que os outros.
ResponderExcluirGostei do texto e de como ele me prendeu.
Abracinho