terça-feira, 28 de agosto de 2012

Rede Cara de Paisagem de Televisão


                Miguel sempre sonhou com aquele momento. Finalmente, estava diante de uma plateia de quinhentas pessoas, e outros cem milhões lhe acompanhavam pela televisão nos quatro cantos do país. Apesar de todo o ensaio que fizera em casa durante toda a vida para aquele momento, ele não tinha a menor ideia de como seria na hora. Parecia até ser um sonho surreal que agora se arquitetava em sua frente. Bizarro.
                Os jurados começaram a se entreolhar e o apresentador já arrumava o terno engomado. O intervalo comercial estava acabando e entrariam no ar em 5, 4, 3, 2, 1.
                As luzes começaram a girar, as gruas vinham de trás da plateia fechando na sequência num primeiro plano do apresentador, que começou a proferir:
- Eles disputaram este título por seis meses. Seus talentos foram postos à prova. Estes dois homens que vocês veem na tela de sua televisão eliminaram mais de cinquenta mil concorrentes, e agora estão muito próximos de realizar seus sonhos de infância, serem reconhecidos para sempre como “o grande vencedor” do mais disputado programa de talentos da história. Mas infelizmente só temos a possibilidade de dar esta honraria a um deles; o resultado já está computado. Podemos divulgar agora quem é o dono do título mais cobiçado do ano!
                Ao dizer isso, o apresentador incendiou a plateia; todos gritavam, batiam palmas, ávidos pelo resultado. Para segurar a audiência, que já deixava a emissora concorrente quase trinta pontos atrás, o apresentador deu uma pequena enrolada:
- E os jurados, tem algo a dizer?
                Miguel e seu concorrente já se mostravam impacientes, mas tentavam manter um sorriso terno e sereno no rosto. Um dos jurados pediu a palavra e pontuou:
- Só quero dizer a vocês que independente de quem for o campeão nesta noite, vocês dois já são vencedores.
- Os dois são vencedores é o caramba! – pensou Miguel – Se ele ganhar eu perco, e vice-versa... Vê se tem cabimento, os dois são vencedores?! – concluiu o pensamento, revoltado, enquanto sorria de orelha a orelha para o jurado e balançava a cabeça consentindo.
                Por um momento, Miguel desligou de toda aquela adrenalina e pensou como seria se ganhasse. Ele tinha se preparado a vida toda, mal conseguia acreditar em tudo aquilo que estava vivendo. O programa em que ele viu tantas referências de sua carreira nascerem agora poderia transformá-lo em uma dessas referências. No fundo, ele tinha certeza que o programa já era dele. Era o mais carismático, e tinha muito talento; não é que o concorrente fosse ruim, mas tinha menos bagagem que ele. Era um caminho natural para as coisas.
                Era hora do resultado:
- Bem, chega de espera – disse o apresentador – com noventa por cento da aprovação popular, o vencedor é... Fernando Onda!!!
                Confetes caíram do teto do estúdio, uma música clássica de vitória começou a tocar, o vencedor se ajoelhou no chão emocionado, e Miguel chegou ao impasse: se abraçasse o oponente, estaria sendo falso demais, pois estava com ódio daquele cara naquele momento. Se não abraçasse, seria o pior perdedor da história. Os créditos subiram e a cara de Miguel apareceu na tela, com uma expressão equânime aliado a uma incredulidade que chegava a ser cômica. Olhou para a câmera e forçou um sorriso com o canto da boca, que não convenceu nem o mais desligado dos telespectadores.
                E a emoção se transformou em comédia.

Um comentário:

  1. O Miguel, como eu, é um péssimo perdedor. Talvez não seja por não gostar de perder, e sim por querer sempre ganhar. Enfim, eu já comecei a me contentar em sempre ser pior do que os outros.
    Gostei do texto e de como ele me prendeu.
    Abracinho

    ResponderExcluir