Quando nasceu,
Dante ficou quase duas horas chorando. Não se aquietava nem no colo da mãe, nem
sob a vigilância dos médicos, nem sozinho no berço, nem no colo do pai, nem no
colo do irmão, e nem no colo da avó. O bebê só fechou a boca quando foi levado para
um quarto separado, só para ele, sob o cuidado exclusivo de uma enfermeira.
Os anos
passaram, e Dante se mostrou uma criança extremamente inquieta. Brincava com
carrinhos, jogava futebol, bola de gude e andava de bicicleta. Ao mesmo tempo.
Apesar de ser “multifuncional”, nada lhe satisfazia plenamente, e ele largava
tudo e ficava imediatamente emburrado.
Na
adolescência, certa vez, viu-se apaixonado por cinco meninas ao mesmo tempo. No
momento em que cada uma delas parecia dar-lhe alguma chance, ele desencantava e
a substituía por outra menina ainda mais difícil de conquistar. Mas o número
permanecia o mesmo: cinco. Parecia uma promessa.
Todos estes
acontecimentos servem para dar uma introdução ao que foi a vida profissional de
Dante. Aos 18, quando resolveu que ia procurar algum emprego para ser dono do
próprio nariz, distribuiu seu currículo para 100% dos empregadores da cidade.
Mas parecia que ele não tinha muito foco, já que se colocou à disposição de uma
pequena infinidade de funções: caminhoneiro, advogado, pedreiro, médico,
padeiro, modelo, contador, músico, piloto de aeronaves, astronauta e
jornalista. É importante pontuar que mesmo sem experiência, ele fez questão de
ser entrevistado. Para todas essas vagas.
Pulando a
parte em que ele tentou escolher com quem se casar, e chegando ao momento em
que ele teve o primeiro filho, lá se vão 15 anos. Ele já estava com 35, e
preparava-se para a maior emoção de sua vida. A maior emoção? Não. Uma das
maiores. Pode ser comparada à aprovação na carteira de motorista, ao dia da
formatura, ao dia do casamento, ao aniversário de 18 anos, à primeira
namorada... Bem, a tantas coisas que não cabe listar neste momento. Ele estava
para ter o primeiro filho. Tinha 120 nomes preferidos, e passava noites em
claro pesquisando e tentando pelo menos diminuir a gama de possibilidades. O
filho nasceu e ele deixou a esposa escolher qualquer nome, pois já tinha dado
um nó no próprio cérebro tentando decidir.
No trabalho
(um grande conglomerado de empresas que oferecia serviços de toda sorte, desde
planos de saúde até construção de edifícios) as pessoas precisavam levar as
duas opções do novo cartão de visitas com três meses de antecedência. A esposa
precisava deixar quinze gravatas enfileiradas na cama no sábado à tarde, para
que ele pudesse decidir até a segunda. O açougueiro precisava esconder a
variedade de carne e dizer que só tinha sobrado uma.
Todas as
pessoas que o conheciam, desde o seu maior desafeto até a própria mãe
conseguiam concordar em uma coisa: a indecisão de Dante lhe fazia muito mal.
Ele nunca conseguiria coisas boas se comportando dessa forma. E cansaram de
dizer isso a ele.
Eis que mais
alguns anos se passaram, e uma famosa conhecida dos humanos veio visitar “Seu
Dante”. Vestia preto. Ela queria levá-lo para um lugar onde ele encontraria
novamente seus pais, seus velhos amigos, e tantas outras coisas das quais ele
não tinha resposta agora. Ela o deixou confuso com essa conversa. Se
arrependeu.
Ele lhe fez
tantas perguntas, mas tantas perguntas, que ela simplesmente sumiu e o deixou
falando sozinho. Ao entregar o relatório diário a seu coordenador, e
obviamente, ter sido cobrada pela sua ineficiência no caso, ela respondeu:
- Tenho certeza que ninguém o aguentaria
por aqui. É melhor deixá-lo lá mais um tempo. Ele é tão entediante que nem deu
vontade de usar a foice.
Pela
primeira vez na vida (e a mais importante de todas), a indecisão de Dante foi decisiva.
Dizem que depois disso, o mesmo Dante criou um livro um tanto quanto célebre chamado "A Divina Comédia". Hahaha.
ResponderExcluirParabéns pelo blog, rapaz. Lê-lo-ei (está certo?) com frequência.
Abraço,